10 fev
2013

Santa Maria: a velha questão (esquecida) dos riscos

Por: Marcus Braga

Aquela manhã de domingo chuvosa não foi povoada com desenhos animados, programa religiosos ou esportivos. Naquele dia chuvoso, a alvorada dominical deixou o país mais uma vez atônito pela morte de mais de 200 estudantes universitários por conta de um incêndio ocorrido em uma boate durante um show, no município de Santa Maria-RS. Distante ou próximos, importa-nos, diante desse fato, reflexões cruciais sobre o futuro, seja de Santa Maria, seja da nossa vizinhança.

O fato lamentável, que causa em todos tristeza e consternação, alimenta o noticiário de opiniões de especialistas e de números que em breve serão esquecidos, pela imposição de outras situações,  de dor ou de júbilo, como ocorreu no desabamento de um prédio no centro do Rio de Janeiro, lembrado no seu aniversário recente, no início de 2013. O número que recordo ao ver uma situação dessas é a que a maioria dos incêndios são extintos nos primeiros 5 minutos e que a grande minoria perdura por horas, reforçando a importância do combate inicial. Mas, o combate inicial necessita de uma questão, que será esquecida em toda essa discussão nacional focada no problema e não na solução sobre o sinistro: a gestão de riscos.

Sim, a boa e velha gestão de riscos. Aquela que nos assevera que um acidente é uma soma de incidentes, uma série de descuidos que colapsam em situações desastrosas. No Brasil, nós temos um problema cultural na gestão de riscos, na capacidade de analisar contextos, identificar possibilidades de falhas e de implementar soluções razoáveis e pouco onerosas de mitigação dessas mesmas falhas. Após o ocorrido, falamos de culpados, mas aprendemos pouco sobre o aspecto preventivo, sobre o que deve ser feito no cotidiano para evitar os desastres da mesma natureza. Se vamos utilizar inflamáveis, aumenta o risco, e necessitamos de um extintor por perto com alguém habilitado. Parece simples, mas são medidas que exigem uma conscientização do problema ainda distante.

Gerenciar riscos não é temer tudo, se trancar dentro de casa e lá não sair. È uma postura de analise de estruturas a partir do que já ocorreu em situações similares e dos potenciais de ocorrência customizados naquela mesma estrutura. Identificados os riscos, promovemos respostas, que não tenham um custo proibitivo e que tenham uma eficiência razoável. Por isso nossos cinemas têm saídas de emergência, extintores, mangueiras e passam antes de cada sessão um filminho educativo orientando sobre o que fazer em caso de sinistros. Medidas simples, que foram internalizados por poucos setores, mas que redundam em benefícios pouco quantificáveis, no resultado pelo mal que não ocorreu.

A busca pela pseudo-eficiência, por fazer mais e a menor custo, pode ser um entrave para as regras preventivas, taxadas de burocráticas ou alarmistas. Ousados, intrépidos, mas às vezes negligentes. Eis o desafio de ponderar a necessidade de se fazer coisas com a prevenção das incertezas. Desafio que se apresenta em cada situação de forma diferente. Na prática, após arrombada a porta, compramos um cadeado maior que o necessário, carregados pelo medo e pouco pela racionalidade.

O medo gera a supervalorização do risco. Após esse ocorrido, nos lembraremos de verificar o extintor de nosso andar no trabalho, de qual foi à última vez que o bombeiro inspecionou nosso prédio, faremos algum investimento de modo a reforçar nossos mecanismos preventivos. È nosso, do ser humano, reagir com medo aos desastres, como ocorreu com a forma com que encaramos o translado aéreo após os atentados de 11 de setembro ou a energia nuclear após o desastre de Fukushima. Na era da comunicação instantânea, a informação alimenta  medo, ainda que de forma efêmera. Entretanto, a situação demanda de nós mais um pouco. Exige-nos atuar sobre o sistema, sobre a educação das pessoas em relação ao imprevisto provável.

Onde estão as aulas nas escolas sobre como prevenir incêndios e outros sinistros? Quantas vezes fizemos exercícios de evacuação no ambiente de trabalho? Sabemos realmente utilizar um extintor e como se portar diante de um risco de incêndio? Dado que a fiscalização regular apontou falhas na prevenção de incêndio de um estabelecimento, como tornar isso público aos seus usuários? Todas essas questões e muitas outras voltam à mesa de discussão diante de um fato lamentável como este e nos remetem ao fortalecimento de uma cultura que transcenda a questão da fatalidade ou da culpabilidade em um acidente desta monta, resgatando a necessidade de enxergarmos o aprendizado que modifique sistemas e procedimentos.

O investigar momentâneo nos apontará culpados, mas essas informações necessitam reverter na atuação dos órgãos competentes, na informação as pessoas sobre os riscos de um incêndio em cada ambiente, como ocorre nos cinemas, um exemplo de prevenção que não nos constrange ou causa mal estar. Descreio que seja apenas um problema de mudar leis ou aumentar a fiscalização. Existe uma questão das pessoas comuns identificarem as situações mínimas de segurança necessárias em um local de sua freqüência, como já internalizamos no uso de cintos de segurança ou na higiene nos alimentos que consumimos fora de casa. Uma mudança de cultura!

E como mudar a cultura de uma comunidade? Bem, fatos gravosos como esse chamam a atenção e possibilitam uma maior absorção de informações. Aí temos os meios clássicos: campanhas publicitárias, reportagens na televisão, a ação em sala de aula, a produção de livros e cartilhas. Mecanismos simples, mas que poderão atuar sobre o elemento humano na sedimentação de uma cultura preventiva em relação a incêndios, em casa, no trabalho e no lazer. A mudança cultural é de difícil mensuração por prevenir o que não aconteceu, mas nem por isso é menos necessária.

Como um filme de cinema-catástrofe, vamos terminar o domingo de números e especialistas, de hipóteses e suposições, dormindo um pouco mais tristes e assustados. No nosso íntimo, buscaremos pensar nos que perderam a vida e naqueles sofridos familiares. Vozes clamarão por justiça, relembraremos desastres similares. Entretanto, a vida nos pede um pouco mais nesse momento. Necessitamos de uma reflexão sobre o sistema, sobre como abordamos a questão do fogo e seus riscos, pensando no futuro de uma forma corajosa e madura, para que as ocorrências que agora nos trazem lágrimas sejam menos freqüente, na concreta valorização da vida.

Por: Marcus Braga

13 Comentários

  • Texto maravilhoso, tanto do lado espiritua como alerta para autoridades, pais que deixam seus filhos menores a deriva e que as fiscalizações nos lugares públicos seja feita com responsabilidade.

  • Foi lamentável o que ocorreu. Penso, que não foi nada proposital, o que acho que teve a imprudência de um lugar tão pequeno, ter o numero de pessoas, o que não deveria ter acontecido, este número exorbitante, de pessoas onde só deveria ter umas 700 passoas, e não mais. Talvez não existisse, tantas mortes. a meu ver, casa nenhuma de show, não deveria ter somente um lugar de entrada e saída. Portanto, isto deverá, ser de imediato, consertada, para que não haja, outros tipos de acidentes. Quantos a números de mortes é chocantes para os famíliares, pois não existem conforto que não os dessespere. Lamento, precisamos achar um meio de não haver mais este tipo de imprudências. quando aos que se foram, pedimos a Deus que os guarde e ilumine sempre… Vamos lutar para que as coisas fiquem sempre certas.

  • As vezes somos atraidos direta ou indiretamente por situações que as vezes foge ao nosso controle.Não digo o que tiver de acontecer vai acontecer não sou Deus mas os processos fisicos,espirituais que desencadearam a isso!Não devemos esquecer que o PAI MAIOR(DEUS)está no comando de tudo sempre.só pra ressaltar somos seres humanos e temos nosso instinto de conservação,pois a sabedoria Divina é sem duvida nenhuma perfeita e inquestionavel e fazemos parte dela!!!Beijos.

  • De fato, as coisas tem que mudar no Brasil. Nao pode continuar do jeito que estah.

  • Tentamos diariamente mudar o pensamentos dos jovens , sem sucesso naturalmente, precisamos sim de diversão, mais com segurança, so que a negligencia publica é total,Se a seguranças dessas boates fosse regularmente vistoriada quem sabe não aconteceria isso. So que no meio dessa multidão a vários fatores que influenciam as mentes humanas, nossos obsessores andam atras desas oportunidades, quantos inimigos invissiveis temos num local desses? Oremos e vigiarmos para que a sociedade mude, tome mais cuidado com esses tipos de diversão, para que nao ocorra mais esses holocaustos da vida moderna.

  • Tudo que foi escrito está correto do meu ponto de vista, e se me permitem dizer algo mais, gostaria de relembrar, uma vez que isso já foi dito, que aqueles jovens, que não pereceram queimados, mas sim, sufocados, são os remanescentes espíritos dos jovens alemães de Hitler, envolvidos infelizmente, na morte dos judeus de então, nas câmaras de gás “arsênico”, o mesmo que sufocou os jovens nesta tragédia… Observando os meninos hoje, amáveis, educados, bons filhos, não podemos imaginar o que houve no passado, e conosco acontece o mesmo, hoje podemos ser bons pais, bons homens, bons cidadãos, mas o passado nunca fica impune, e precisa sêr resgatado, para a continuação da jornada… Não importa o que houve no passado, apenas faço a lembrança, todos nós, sem excessão somos devedores, uns mais, outros menos, por isso estamos aqui, a vida não começou agora e nem termina com a parada cardíaca !
    Com isso quero dizer, que os fatos se sucedem, uns servem para consertar outros, agora farão alterações nas leis, se descobrirão alguns corruptos pra variar, e nisso o Brasil é pródigo, apontarão alguns culpados, e assim se atenderá a justiça terrena, porém o mais importante nessa tragédia, do meu modo de vêr, é aquilo que na realidade não enxergamos na maioria, é o resgate dos espíritos, de um lado a dôr dos que ficaram, mas de outro, a paz pela quitação de débitos terríveis, e a certeza da jornada que os espera adiante, até quem sabe, agora, ex-judeus, ex-nazistas, o amor de Deus tem êss poder, o de unir os contrários, através do perdão …

  • Lamento muito o aconteçido, sabemos que alguma coisa tem nor ar, algo que ainda desconheçemos, mais foi muitas pessoas partindo ao mesmo tempo….tenho muitas dúvidas ,nada os trará de novo de corpo e espirito ,para suas casas ,tudo que podemos fazer agora é rezar por estes espiritos e suas familias….que DEUS os ilumine ….muita PAZ E LUZ ,para todos.

  • Belíssimo texto , que sirva de alerta a todos nós

  • Sábia reflexão!
    Penso que tudo começa COM A AUSÊNCIA DA EDUCAÇÃO, realmente.
    Que DEUS nos ilumine a todos na busca por ideais para uma vida digna e feliz!!!!
    krinhossss

  • Dizem que com os erros que aprendemos,esperamos que o ocorrido em santa maria tnha sido a gota d’agua para a imprudência que é causadora de tantas tragédias.A Fisclização deve ser responsável e os fiscais não podem ser corruptíveis,pq em muitos casos,faz-se vistas grossas para os riscos mediante “molhar a mão” dos fiscais.Não sei se em santa maria foi esse o caso, mas muitas tragédias podem ser evitadas se houver mais compromisso com a segurança e menos interesse nos lucros exorbitantes

  • Bem o que eu acho que as pessoas gostão de ver o desastre,a tragédia alheia.E a midia se aproveita diso.Mais ninguem pensou na dor da Perda de seus familiares,qtas pais perderão um,dois filhos?
    Quem vai apagar essa dor,ninguem porque a midia nao sera pois ja explorarao tudo o que puderao.
    Alguem pensou em fazer uma corrente para os parentes dessas pessoas.
    Se fosse uma piada,uma putaria todo mundo compartlharia.
    Se fosse uma corrente para ganhar um ingresso para o show de algum cantor todo mundo fria.
    Nós precisamos deixar de pensar tanto em nós e pensar mais nos outros.

  • Oi,
    Pesquisei o seu blog e pude ver que vocês fazem um trabalho bonito e sério.
    Por essa razão sugiro que assistam as previsões de Aline, da Cidade das Pirâmides, para o ano de 2013.
    São três programas imperdíveis. Confiram http://youtu.be/hJV1qZWTtF0 .
    Caso desejarem visitem também o nosso Blog:
    http://deolhonomundoblog.wordpress.com/ Divulguem e falem com Aline!
    Abraços.

  • fiquei muito triste com tudo que aconteceu mas , ao mesmo tempo feliz pelo resgate de tantas pessoas que foram para outro lado da vida que e muito lindo pois aqui so estamos de passagem. porque tenho certeza que estão muito bem e felizes porque isso aqui e o mundo cão.

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