1 maio
2012

Mantra

Por Marcus Braga

Marcus Braga - arquivo VE

Em um culto religioso de raízes Afro-Brasileiras, todos os presentes entoam  um ponto de determinada entidade, aguardando no decorrer daquela ladainha a manifestação daquele espírito.
Em uma prática originária da índia, fiéis entoam repetidas vezes o mantra “Hare Krishna Hare Krishna Krishna  Krishna Hare Hare  Hare Rama Hare Rama Rama Rama Hare Hare”
Em uma igreja católica, fiéis seguram fervorosamente o terço nas mãos, rezando repetidas vezes a oração do Pai-Nosso e a Ave-Maria, na busca de completar o rosário.
Em uma tribo de índios do Alto Xingu, antes do ritual religioso, os indígenas entoam cantos repetitivos relembrando os espíritos de seus antepassados.
Na modesta casa espírita, antes da prece de abertura da reunião, um Jovem da mocidade com o violão promove a ambientação com suave melodia acompanhada por todos os presentes.
O que teriam em comum essas manifestações religiosas diversas na busca de sintonizar com o seu conceito de “Plano espiritual”? Seria um ritual exterior ou existe nessas práticas uma explicação do nosso processo de sintonia com o “alto”?
Na oração em suas múltiplas manifestações no decorrer dos séculos e culturas, a sintonia com o alto nem sempre foi valorizada por ser expressão do sentimento, mas por muitas vezes pela quantidade de repetições ou pela emissão de determinada expressão sagrada. “Nenhum sinal cabalístico ou palavra sacramental tem efeitos sobre o espírito e sim o pensamento”, como afirma peremptoriamente a pergunta de número 553 de “O Livro dos Espíritos”.  [grifo nosso] Porém, o fato de ser decorado ou repetido, não implica necessariamente em ser um ato mecânico ou ritualístico. Como a religião é uma expressão da cultura de um povo, geração a geração o indivíduo vai aprendendo e modificando a sua forma de relação com a divindade através da oração, buscando colocar a emoção e o fervor que lhe demanda aquele momento. Lembre-mos que  o Pai-Nosso surgiu quando perguntaram a Jesus como rezar… Um pouco de psicologia nos ajudará a entender esse processo.


As experiências do Famoso pesquisador Russo IVAN PAVLOV (1849 – 1936), que foi o precursor da teoria behaviorista da psicologia, demonstrou a existência no seres vivos de um reflexo condicionado aos estímulos, o famoso reflexo condicionado, ao realizar uma experiência simples. Ao alimentar um cão confinado, antes de servir a refeição acendia uma luz. Após vários dias repetindo esta prática, ao acender a luz o cão já salivava, preparado para receber o alimento. Ou seja, mediante um estímulo exterior (A luz), o seu organismo reagia para o ato que ele fora condicionado. Essa relação de condicionamento se reflete nos nossos processos mentais, como bem apresenta o espírito André Luís no livro “Mecanismos da Mediunidade”, psicografado por Francisco Cândido Xavier, demonstrando que os estímulos externos  na criatura humana, ainda presa a realidade terrena, fornecem mecanismos de indução mental, de sintonia de nosso pensamento. [grifo nosso]
“Uma conversação, essa ou aquela leitura, a contemplação de um quadro, a idéia voltada para certo assunto, um espetáculo artístico, uma visita efetuada ou recebida, um conselho ou uma opinião, representam agentes de indução, que variam segundo a natureza que lhes é característica,  com resultados tanto mais amplos quanto maior  se nos faça a fixação mental ao redor deles. ( André Luís  Apud XAVIER, 1991, p. 94)”.
Ou seja, a nossa relação com o mundo é uma relação de nossa vontade e os estímulos que recebemos do  mundo material  e espiritual. Seja a influenciação dos encarnados, desencarnados ou do ambiente.
Resgatado as idéias dos psicólogos interacionistas, como o famoso Jean  Piaget,  utilizaremos os conceitos do redescoberto psicólogo Russo L.S. Vigotzky, quando ele apresenta a nossa relação de apreensão da realidade como  uma relação mediada por signos e instrumentos, onde para que esses estímulos sejam melhores apreendidos, eles sejam significados por um elemento mediador. Ao longo do processo de maturação do indivíduo (e das coletividades), este processo vai se  internalizando, onde os signos exteriores não são  mais necessários, sendo substituídos por signos internos.
O processo pelo qual o indivíduo internaliza a matéria-prima fornecida pela cultura não é, pois, um processo de absorção  passiva, mas de transformação, de síntese. Esse processo é, para Vigotzky, um dos principais mecanismos a serem compreendidos no estudo do ser humano. É como se, ao longo de seu desenvolvimento, o indivíduo “ tomasse posse” das formas de comportamento fornecidas pela cultura, em um processo em que as atividades externas e as funções interpessoais transformam-se em atividades internas, intrapsicológicas.(OLIVEIRA, 2001,p. 38)”  Em um dizer mineiro, vamos explicar melhor esse trem: Os objetos e pessoas, ou seja, o ambiente, interagem conosco ao longo da nossa história, onde nos modificamos e modificamos o mundo a nossa volta. Esses estímulos do ambiente, se vinculados a signos, são melhores apreendidos por nós, através da mediação. Como uma  criança que colore as teclas do piano para identificar melhor as notas. Com o tempo, abandonamos as dependências desses signos, pois eles vão se internalizando, transformando-se em  referências internas.
A nossa  relação com o processo de comunicação com a divindade segue essa lógica também,  onde as pessoas e grupos religiosos necessitam de signos que ativem aqueles mecanismos de condicionamento que as desliguem do mundo exterior e suas preocupações e em um dizer jungiano, as remetam para a vida simbólica, interior, onde é conectado o canal com a divindade. Com o tempo nós vamos internalizando esse processo com muita meditação e reflexão. Entretanto, alguns se acrisolam mais no signo do que na divindade.
No mundo material, onde vivemos lutando pela sobrevivência, pelos bens materiais necessários,  exigir das civilizações essa sintonia com a divindade  imediata, como o desligar de uma chave ON-OFF, seria impossível. Com o  passar  dos tempos, foram sendo criadas culturalmente  artifícios para esse  processo que similar ao “transe”, permita a criatura olhar  para seu mundo interior. A ladainha repetida condiciona a mente  a sintonizar com aqueles momentos de reflexão anteriores, ajudando a fixar na idéia  nova, auxiliando a romper com o mundo físico. Quantas vezes, incluindo nas atividades de desobssessão, utilizamos da mentalização de imagens e  frases na busca de romper uma idéia fixa  e empedernida? A mentalização é  parte desse processo de introjeção  desses signos. Infelizmente, muitos se utilizam desses mecanismos em artifícios de sugestão hipnótica e dominação, sejam estes encarnados ou desencarnados.
“Em toda a parte, desde os amuletos das tribos mergulhadas em profunda ignorância até os cânticos sublimados dos santuários religiosos dos tempos modernos, vemos o reflexo condicionado facilitando a exteriorização de recursos da mente, para o intercâmbio com o plano espiritual. ( André Luís  Apud XAVIER, 1991, p. 94)”.
Não se traduzem então essas manifestações em meros  rituais mecânicos (Como por vezes generalizamos), onde com certeza o  sentimento, a vontade e a  reflexão  poderiam estar presentes, determinando o processo de sintonia com o plano  maior. Cada religião desenvolveu seus mecanismos de sintonizar a mente dos seus fiéis, repletas de preocupações com   o mundo material,  com o Plano espiritual. Curiosamente, o fato da prece ser espontânea, não traduz necessariamente que a mesma esteja  permitindo a  sintonia com as forças maiores, bem como o  fato do indivíduo buscar na  sua religião um artifício para sintonizar  a sua casa mental com os espíritos amigos não implica em um  ato mecânico. O fator determinante desse processo  não é externo e sim interno. A fé, aquela que Jesus nos advertiu pela falta  dela, que nos permite  essa sintonia. Muitas vezes mascaramos a nossa espontaneidade em atos mecânicos e que não são repetitivos.
 “Vemos instituições respeitáveis, nas quais um outro tipo de ritual, mesmo onde se diz detestá-lo, vai tomando corpo e devorando a espontaneidade: é o formalismo, que poderíamos também chamar de indiferença e desamor.( MIRANDA Apud FRANCO, 1991, p.152)” [grifo nosso]

Por vezes nos preocupamos com repetições e na perseguição do que é ritual, quando o formalismo demonstra grandes doses de mecanicismo e frieza nas nossas atitudes, desligando a nossa essência da divindade, ainda que a retórica da prece seja magnífica.. Devemos entender que na obra divina tudo é um processo, pois “ninguém chega ao cume de um monte sem vencer o vale e as anfractuosidades da rocha, no esforço de ascender (MIRANDA Apud FRANCO,1991, P.25)”,  e que na contabilidade divina o entendimento da criatura é sempre um dado computado na avaliação das questões. As obras espíritas, principalmente de André Luís, são fartas de orações luminosas em ambientes ritualísticos. O fato da forma não atrair os espíritos não implica que não haja sentimento e fé nas manifestações ritualísticas. Deus não desampara os que pedem com fervor e merecimento…
Posto isso, amigo, quando na visita fraterna aos enfermos estes pedirem humildemente que seja rezado o “Pai-Nosso”, por serem a única oração que conhecem, vamos fazê-lo com fé e emoção remetendo aquele momento do sermão da montanha onde Jesus proferiu aquelas palavras. Antes de realizarmos uma linda prece, verifiquemos se aquelas palavras saem de nosso coração e que os “canais estão abertos” para a sintonia com o criador.  [grifo nosso] E se após o dia na defesa do pão material na labuta diária, na reunião pública da casa espírita necessitarmos de uma canção para harmonizar o ambiente, que seja cantada remetendo a nossa mente para as boas imagens e boas idéias, elementos que serão utilizados pelos espíritos que trabalham na  reunião. O ritual é uma questão íntima…O próprio Kardec apresentou sugestões de preces, ciente de nossas dificuldades de abstrair o plano material.
A vida verdadeira é a vida espiritual e não queremos retornar as repetições contemplativas e punitivas de tempos passados, elementos de dominação e escravização do pensamento. Mas, na obra da divindade, nada é em vão e essas repetições permitiram e ainda permitem, nos momentos de dor e louvor, ligar a criatura a Deus. E nós, encarnados como somos, ainda não dispomos dessa “internalização” completamente. Mas, chegaremos lá…

Bibliografia:
1.   FRANCO, Divaldo Pereira- Manoel Philomeno de Miranda (Espírito)- Loucura e Obsessão- Rio de Janeiro, FEB-1991.
2.   KARDEC, Allan- O Livro dos Espíritos-  Rio de Janeiro, FEB-1993
3.   OLIVEIRA, Martha Kohl de- Vigotzky, aprendizado e desenvolvimento. Um processo sócio-histórico. 4° Edição . São Paulo . Editora Scipione – -2001
4.   XAVIER, Francisco Cândido- André Luis (Espírito)- Mecanismos da Mediunidade-  Rio de Janeiro, FEB, 1991.
Marcus Vinicius de Azevedo Braga é Pedagogo, evangelizador infantil  e freqüenta o Grêmio Espírita  Atualpa, em Brasília- DF, tendo editado em 2001 o livro “Alegria de servir” pela FEB.

O leitor encontra este artigo > http://www.forumespirita.net/fe/artigos-espiritas/mantra/

3 Comentários

  • Bom dia! Oportuna e reflexiva contribuição. Gostei da abordagem perpassando pelo caminho da Educação. Sem dúvida o conhecimento de mecanismos facilitadores da internalização do conhecimento nos permite compreender as lições deixadas pelos mensageiros da Boa Nova.

  • SABEMOS que Jesus na sua época de encarnado, ensinou o Pai Nosso, para aquela humanidade simples, pouco intelectualizada e moralizada. Isso percebe-se, por exemplo pela frase: Pai Nosso que estais no Céu.
    Jesus informou que na casa do Pai existiam muitas MORADAS e elas encontram-se em todo o UNIVERSO e o céu é palavra usada por religiões desatualizadas/interessadas em manter DOGMAS.
    Santificar o nome “DEUS” assim na Terra como no Ceu.
    Isso não se faz através da palavra. Faz-se pelas ações, atitudes e comportamento, cumprindo as Leis Naturais do CRIADOR, usando nosso Livre-arbítrio que é regido pela Lei de Causa e Efeito. Aos doentes ou a a quem desconhece os ensinamentos dos Espíritos, façamos explicações comparativas e atualizadas, divulgando nossa AMADA DOUTRINA. Em termos de SINTONIA-RESSONância, Ondas eletro-magnêticas, vibrações/frequências, precisamos nos atualizar e os Livros de Andrè Luis/ Chico, Evolução em Dois Mundos, Mecanismos da Mediunidade e nos Dominios da Mediunidade, são fonte de conhecimento que o Espírita precisa conhecer, para então falar sobre como ORAR, e como existe a SINTONIA e o que técnicamente é necessário, para ela acontecer, e a que niveis de evolução espiritual.

  • Tenho acompanhado com Interesse e Atenção aos textos enviados,que para o meu caso de um “Palestrante Neófito” são muito importantes…Cito na oportunidade o meu caso, em que minha esposa é católica e algumas veses a acompanho em suas rezas,intimamente não me agrada a reza do “Terço” com a repetição excessiva das preces,mas ao mesmo tempo me vêm o pensamento de que devo ser humilde em acompanha-las e até respeita-las, já que isto faz muito bem a elas no limite de seu entendimento e conhecimento…Fraternalmente,

Então, O que achou?