11 dez
2010

Estou preparado para a morte

José de Alencar

Entrevista depoimento do vice-presidente da República, José de Alencar, de 77 anos, à Revista Veja, edição de 09/9/2009, em tratamento contra o câncer.

O agravamento da doença lhe trouxe algum tipo de reflexão?

A doença me ensinou a ser mais humilde. Especialmente, depois da colostomia. A todo momento, peço a Deus para me conceder a graça da humildade. E Ele tem sido generoso comigo.
Eu precisava disso em minha vida. Sempre fui um atrevido…

É penoso para o Senhor praticar a humildade?

Não, porque a humildade se desenvolve naturalmente no sofrimento.
Sou obrigado a me adaptar a uma realidade em que dependo de outras pessoas para executar tarefas básicas. Pouco adianta eu ficar nervoso com determinadas limitações.
Uma das lições de humildade foi perceber que existem pessoas muito mais elevadas do que eu, como os profissioanis de saúde que cuidam de mim. Isso vale tanto para os médicos Paulo Hoff, Roberto Kalil, Raul Culati e Miguel Srougi quanto para os enfermeiros e auxiliares de enfermagem anônimos que me assistem.
Cheguei à conclusão de que o que eu faço profissionalmente tem menos importância do que o que eles fazem. Isso porque meu trabalho quase não tem efeito direto ao próximo.
Pensando bem, o sofrimento é enriquecedor.

Essa sua consideração não seria uma forma de se preparar para a morte?

Provavelmente, sim.
Quando eu era menino, tinha uma professora que repetia a seguinte oração: “Livrai-nos da morte repentina”.
O que significa isso? Significa que a morte consiente é melhor do a repentina. Ela nos dá a oportunidade de refletir.

O senhor tem medo da morte?

Estou preparado para a morte como nunca estive nos últimos tempos. A morte para mim hoje seria um prêmio. tornei-me uma pessoa muito melhor.
Isso não significa que tenha desistido de lutar pela vida. Aluta é um princípio cristão, inclusive. Vivo dia após dia de forma plena. té porque nem o melhor médico do mundo é capaz de prever o dia da morte de seu paciente. Isso cabe a Deus, exclusivamente.

O senhor se deu conta da comoção nacional que tem provocado?

Não há fortuna no mundo capaz de retribuir o carinho dos brasileiros.
Sou um privilegiado. Você não imagina a quantidade de manifestações afetuosas que tenho recebido.
Um dia desses me disseram que, ao morrer, iria encontrar meu pai, falecido ha mais de cinquenta anos. Aquilo me emocionou profundamente. Se for para me encontrar com mamãe e papai, quero morrer agora. A esperança de encontrar pessoas queridas é um alento muito grande – e uma grande razão para não ter medo do momento da morte.

Fonte: Agenda Editora EME 2010

Então, O que achou?